sábado, abril 14, 2007

QUEM APRENDEU A MORRER DESAPRENDEU DE SERVIR

Aprendamos a enfrentá-la de pé firme e a combatê-la. E, para começar a roubar-lhe a sua maior vantagem contra nós, tomemos um caminho totalmente contrário ao habitual.
Eliminemos-lhe a estranheza, trilhemo-lo, acostumemo-nos a ela. Não pensemos em nenhuma outra coisa com tanta frequência quanto na morte. A todo o instante representemo-la à nossa imaginação, e sob todos os aspectos. Ao tropeço de um cavalo, à queda de uma telha, à menor picada de alfinete, ruminemos imediatamente: «Pois bem, quando será a morte mesma?» E diante disso enrijeçamo-nos e fortifiquemo-nos. Pelo meio às festas e à alegria, conservemos esse refrão da lembrança da nossa condição, e não nos deixemos arrastar ao prazer tão intensamente que por vezes não volte a passar-nos na lembrança sob quantas formas o nosso regozijo está na mira da morte, e com quantos ataques ela o ameaça. Assim faziam os egípcios, que, pelo meio dos seus festins e no melhor divertimento, mandavam trazer o esqueleto de um corpo de homem morto, para servir de advertência aos convivas, Imagina que cada dia que brilha é para ti o dia supremo; receberás com reconhecimento a hora com que não havias contado (Horácio). É incerto onde a morte nos espera; esperemo-la em toda a parte. A premeditação da morte é premeditação da liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu de servir. Saber morrer liberta-nos de toda a sujeição e imposição. Na vida não existe mal para aquele que compreendeu que a privação da vida não é um mal.

Michel de Montaigne, -in 'Ensaios'

A VERDADEIRA MORTE É A DECADÊNCIA

  • - Nunca se faz nada da vida. - Mas ela faz
    alguma coisa de nós. - Nem sempre... O que espera você da sua? - Penso que sei
    sobretudo o que não espero dela... - De cada vez que você teve de optar, não
    se... - Não sou eu que opto: é aquilo que resiste. - Mas o quê? - À consciência
    da morte. - A verdadeira morte, é a decadência. É tão mais grave, envelhecer !
    Aceitarmos o nosso destino, a nossa função, a casota de cão erguida na nossa
    vida única... Não se sabe o que é a morte quando se é novo... André Malraux,

    "A Estrada Real"