sábado, fevereiro 03, 2007
O SEGREDO... (video)....QUANDO "DEUS" NÃO RESPONDE
Eli, Eli, lemá sabactáni ? Eloí, Eloí, lemá sabactáni ? Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? (S. Mat. 27, 46; S. Mar. 15, 34)
Na primeira invocação, a forma ELI, ELI, é hebraica; na segunda, Eloí, Eloí, é aramaica. Perante esta dualidade, põe-se a questão: Qual delas terá dito Jesus? Na nossa opinião foi a de Mateus (Eli, Eli), porque houve quem pensasse que Jesus pedia a intervenção de Elias, que em hebraico e aramaico soa Eliyya.
A frase dita por Jesus é uma citação do Sl 22 que no texto hebraico diz Eli,Eli, lamá azavtani. O sentido é o mesmo, mas Jesus deve ter dito de cor as palavras de outra versão. Encontramos muitas dessas discrepâncias nos Evangelhos. Quanto ao pronome interrogativo (porquê?), Almeida e muitos outros dão a forma lamá, que aparece no texto grego do Novo Testamento, que é, aliás, uma forma alternativa da lama hebraico. Por isso, preferimos lemá.
Curiosamente, o texto grego da Septuaginta diz: Ó Theos, ó Theos mu, proshes moi; hina ti enkatelipes me? (Ó Deus, ó meu Deus, repara em mim; porque me abandonaste?), que a Vulgata, mais próxima da Septuaginta do que da Bíblia Hebraica, traduziu à letra: Deus, Deus meus, respice in me, quare me dereliquisti?
A tradução grega, fazendo um pouco de exegese, amplia o conceito dos vocativos, dizendo Ó Theos, ó Theos mu, em vez de Ó Theos mu, ó Theos mu, que seria a tradução literal do hebraico. A alteração fez da primeira invocação um termo universal (Deus de todos, Senhor do Mundo) e da segunda, um termo particular (Deus do que o invoca, Deus de Jesus). É a filosofia grega ao serviço da teologia, uma arte em que S. Paulo foi mestre.
No âmbito teológico, a pergunta, dada sem contexto, pressupõe que Deus tenha abandonado o Filho, deixando-o morrer naquela terrível cruz, o que nos pode levar a pôr a seguinte questão: se Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Trindade, como podia Deus Pai abandoná-lo? E como pode Deus (na forma do Filho, sofrer a morte? Ora, Deus é imortal! E Cristo é Deus.
O problema põe-se no entendimento do mistério cristológico, que grandes teólogos como Anselmo, feito Arcebispo de Cantuária em 1093, tratou do seu livro Cur Deus homo? (Porquê Deus-Homem). Embora seja difícil distinguir pelos seus actos a natureza divina de Jesus da sua natureza humana, podemos concluir que aquelas palavras terão saído da sua natureza humana.
A Igreja recorda-nos e põe-nos a repetir a crença nesse mistério, através do Credo Niceno:
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, gerado do Pai desde toda a eternidade, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao pai.
Exactamente: gerado do Pai desde toda a eternidade e também consubstancial ao Pai, isto é, da mesma substância divina que o Pai ou uma só substância com o Pai.
Alguns teólogos interpretam a exclamação Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Não como uma queixa num momento de desespero mas sim parte de uma oração, que seria a recitação do Salmo 22, “salmodiando ao Senhor”, como diz S. Paulo em Efésios 5, 19. Vejamos as partes principais desse Salmo.
Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? Por que me manténs distante, quando eu grito por socorro? Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes; durante a noite, e não tenho sossego. E contudo tu reinas no santuário, como glória de Israel. Os nossos antepassados confiaram em ti o tu os livraste. Pediram-te ajuda e escaparam do perigo; confiaram em ti e não ficaram desiludidos.
Mas eu já não sou um homem: sou um verme, desprezado por todos e escarnecido. Os que me vêem zombam de ti; fazem troça e abanam a cabeça dizendo: “Entregou-se ao Senhor, ele que o livre; que o salve, já que o ama. Tu cuidaste de mim desde o ventre de minha mãe e puseste-me em segurança nos seus braços. (...) A minha garganta secou-se como barra cozido e a minha língua pegou-se ao céu da boca. Abandonaste-me à beira da sepultura. Um bando de malfeitores me cercou como cães; rasgaram-me as mãos e os pés. Poderia contar todos os meus ossos; os meus inimigos olham para mim e pasmam. Repartem entre si a minha roupa e lançam sortes sobre ela.
(...) Todas as nações se lembrarão do Senhor; de toda a parte do mundo se voltarão para ele. Todas as raças o adorarão. De facto, o Senhor é rei: é ele que governa as nações. Adorem-no os que já desceram à sepultura; todos os mortais se curvem na sua presença, pois ele é quem dá a vida. As gerações futuras servirão o Senhor e falarão dele à geração seguinte; irão contar aos vindouros aquilo que o Senhor fez para salvar o seu povo.
A pergunta de Jesus, pregado no madeiro onde ia morrer, pode nesse caso, ser entendida como uma figura de pensamento, em que se fazem perguntas sem esperar respostas. Quantas vezes fazemos isso nas nossas orações, nos momentos de dor e de angústia, pedindo a Deus que nos esclareça, que nos responda, que não nos abandone !
Cónego Dr. João Soares de Carvalho
Esta análise da vida de oração de nosso Senhor antes de Sua crucificação deveria nos ensinar que as respostas às nossas orações podem nem sempre ser o mais importante. Podemos passar por derrotas, doenças, tragédias e catástrofes. Mas o que realmente deve ser lembrado é que somos de Cristo.
Creio que é por essa razão que, ao falar de provas e tribulações, o apóstolo Pedro exclamou triunfante: "Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (1 Pedro 1.6-7).


